domingo, 29 de maio de 2011

Mais do que uma conquista. Um tratado para com os estilos

Já o escrevi, e é o grande dilema do futebol atual. A preservação dos estilos. O duelo entre a equipa mais forte do ponto de vista estratégico, com um modelo de jogo adquirido, mas com maiores variações de jogo para jogo, em função do adversário, e a equipa filosófica, que molda um estilo muito próprio e tenta aplicá-lo da melhor forma (leia-se, introduzindo algumas nuances estratégicas, obviamente), e perde, empata ou ganha, vivendo feliz com isso.
Na mnha opinião, desde que vejo futebol, esta foi a época mais justa para com esta última forma de pensar o jogo. Na final da Champions, duas fortalezas caminhantes do futebol, Barcelona e Manchester. Dois treinadores, um uma instituição de futebol em si mesmo, outro um David, que apareceu no futebol com ideias do tamanho de Golias. Estilos completamente diferentes, a mesma forma de pensar aquilo que deve ser a identidade de uma equipa. Isto, e relembrando a conquista do Porto, prova que, de facto, talvez haverão estilos no futebol, para a eternidade.

sábado, 28 de maio de 2011

Anfield Road? Inferno da Luz? Claro, mas e a Hinchada Manya?

Foi na madrugada desta sexta-feira. Estava eu mais a dormir que acordado, à espera do começo do jogo da meia-final da Libertadores, Peñarol x Vélez. Pensava que já nada me podia acordar quando fiquei completamente embasbacado com o ambiente a que assisti. Despertei logo, obviamente. Juro que pensei seriamente se seria já o fim do jogo, devido a algum erro na transmissão ou algo assim. Fogo de artifício por todo o lado, que mais parecia uma passagem de ano de Pequim em pleno Estadio Centenario (capacidade para 65000 adeptos, no Uruguai claro), polícia de choque a sair pelos túneis, uma fumarada infernal que mal deixava transparecer o verde do relvado. Os adeptos, os petardos, a nuvem de fumo e as bandeiras e cachecóis, formavam a voz que se ouvia a proferir, autoritária: "E agora, Vélez?" . Eu pensei que o Peñarol já tinha ganho o jogo antes de ele sequer começar. E... talvez assim tenha sido. Peñarol 1-0 Vélez . A cabeçada de Dário Rodríguez, veterano da casa, levava essa mesma voz e alma dum clube histórico, que queria fazer... mais história. O jogo nem foi muito rico, a equipa uruguaia assentou basicamente num esquema mais defensivo, tentando surpreender em contra-ataque, por Mier, Martinuccio e Olivera (Corujo também, mas pareceu-me ser menos vertical, joga como médio ala direito, mas quase como um segundo lateral). O Vélez dominou em posse de bola, criou algumas situações (grande jogo de Ricky Alvarez), mas esbarrou quase sempre contra a muralha do Peñarol, onde destaco Carlos Valdéz, central emprestado pelo Reggina, e, claro, a parede invisível construída pela Hinchada Manya. Vale a pena voltar a ver um jogo importante do Peñarol, naquele estádio, para assistir ao que se joga desde a bancada, é um ambiente lúgubre e fantástico ao mesmo tempo, tudo depende... de que lado se joga.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Porto e Braga. Mais uma vez, um duelo entre filosofia e estratégia.

O F.C. Porto vence a UEFA Europa League, mas, mais do que isso, vence dando a sensação que passeou por lá, alegremente. Este é o melhor elogio que posso fazer a esta equipa. No fim, Porto e Braga disputavam mais do que uma mera final, na minha opinião. Punham em jogo também a resposta a uma pergunta que vai continuar a ser posta no futebol moderno: poderão homens como José Mourinho (o mais fiel apóstolo da estratégia) pôr um fim às ideologias e estilos no futebol? André Villas-Boas, nessa final, disse que não. O Braga inverteu o triângulo do meio-campo, jogando com um médio mais recuado e dois volantes à sua frente. Vandinho-Custódio e Hugo Viana. Este último, na minha opinião já demasiado lento para poder dar velocidade na transição defesa-ataque, já que o passe longo nunca resultou (gostava de ter visto Salino), ficava mais, dando liberdade a Custódio (grande jogo). A ideia de Domingos foi clara, jogar num bloco médio-alto, dificultando não a saída em posse do Porto, mas a sua fase de construção a meio-campo (vi Falcao descer à linha de meio-campo duas ou três vezes), marcando em cima Guarín e Moutinho, com Paulo César e Alan muito bem a fechar (Guarín gosta muito de entrar no espaço que Hulk deixa quando vem para dentro). Com isto, surpreendeu muito a equipa azul e branca,e vi mais Braga no primeiro quarto de hora. Depois, a solução encontrada (fantástico Otamendi) passou muito pelo jogo mais directo para Hulk e Varela, que tentavam aproveitar o espaço nas costas dos médios, para, assim, obrigá-los a recuar, e, aí, poder fazer o seu "tiki-taka". Sucedeu que muitas vezes a linha defensiva do Braga subiu demasiado (não me pareceu que Domingos o quisesse) para não dar espaço a Hulk ou Varela de receber, e a bola passou a entrar... nas costas deles. O Porto cresce, e chega ao golo (Falcao, com o salto de trampolim e o seu jeito artístico, mas cheio de alma a cabecear, disse logo a Artur que ia ser golo). O Braga ainda conseguiu uma chance flagrante por um erro de Fernando, numa pressão excelente de Mossoró, em que Hélton brilhou. Contudo, nunca conseguiu incomodar verdadeiramente o F.C.Porto, e este, sempre fiel à sua filosofia, venceu... a estratégia.

Sabedoria e loucura. Como duas palavras semanticamente tão diferentes podem coexistir numa mesma lógica de pensamento.

Alegria, alguma "insanidade mental", virtuosismo e sabedoria. Leia-se, Hélton. Seguindo esta lógica de pensamento, vejo este guarda-redes brasileiro como o Mestre Splinter do futebol actual. Irreverência e erudição ao mesmo tempo. Divertido, sorriso de roedor sempre carregado no rosto parecendo que pertence a um mundo alheio, lá dentro, pisando a relva ou voando sobre ela, solta a "bengala" e assume a sua arte.
Até admito que ela possa ter existido, mas não me lembro, sinceramente, de uma falha clara de Hélton esta época. Importante, senão decisivo mesmo, em todas as eliminatórias que o F.C. Porto disputou na Europa League (e sim, até mesmo frente ao Spartak), foi um semáforo ao milisegundo na defesa portista. Fortíssimo nas saídas, extremamente seguro na disputa pelo ar(gestão de posicionamento, timing de salto, decisão de socar/segurar), bom no um-para-um (melhorou muito, não cai tão rápido), e ágil entre os postes, Hélton é, para mim, sorrindo(por vezes até mesmo com a bola nos pés), ou gritando, o mais louco dos sábios guarda-redes do futebol, pertencente a um top 10 mundial.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Deverá, por concepção-base, uma equipa ter uma única forma de jogar? Sim, e não

O Benfica perde os dois troféus de real valor que ainda podia ganhar esta época, nas meias-finais da Taça de Portugal e da Europa League, frente ao F.C.Porto e S.C. Braga, respectivamente. Dizem alguns analistas, que perdeu ambos por erros do treinador, Jorge Jesus. Até concordo, mas não me parece que seja só a questão física (que é notória, obviamente), ou por determinado jogador ter entrado demasiado tarde ou por outro que não devia ter saído. Acho que vai muito para além disso. Em conferência de imprensa (antevisão do jogo frente ao Braga), Jorge Jesus disse com toda a naturalidade que "O Benfica vai jogar ao ataque, até porque não sabe jogar de outra forma, é o nosso modelo de jogo e características dos jogadores que temos". Ora, mas deverá uma equipa ter uma única forma de jogar? Defendo que sim, mas com as devidas adaptações ou, então, tem de ser capaz de controlar/perceber os diferentes momentos do jogo (gerir ritmos). Confesso que me incomoda, cada vez que vejo o Benfica jogar, parecer-me que os jogadores jogam todos sentados num Ferrari, como que se cada lance fosse em contra-relógio. Não me refiro a isto apenas agora, em que o Benfica já é muito criticado, mas também quando disputava a Champions, e na época passada, pela forma como foram afastados da Europa League em Anfield Road. De facto, uma equipa não deve contrariar aquilo que é a sua natureza/filosofia de jogo, resta saber se ela é a melhor e a mais adequada, de forma a poder dominar um jogo... controlando-o. Parece o mesmo, mas não é. O Benfica não tem a capacidade, na minha opinião, de diminuir o ritmo a que constrói o seu momento ofensivo (nota-se, sobretudo, na zona de construção), fazendo com que crie, muitas vezes, a ilusão de controlo do jogo, quando apenas está... a dominar. Repare-se que perde duas eliminatórias, nas quais já trazia uma vantagem prévia, revelando a incapacidade de jogar da mesma forma e de acordo com a sua identidade, como pretendia Jorge Jesus, mas... mais devagar, de forma mais controlada, correndo menos riscos. Penso que talvez falte uma coisa muito simples, um médio de transição puro, que se encontra lesionado, algures no plantel encarnado. Rúben Amorim.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Torino 1942-1949

Fez ontem, 62 anos que esta grande equipa do Torino, que hoje leio e vejo como sendo uma página marcante do futebol mundial, se despenhou num trágico acidente de avião, quando tentava a aterragem em Itália, depois de ter perdido por 4-3 aqui em Lisboa, em que o Benfica celebrava a despedida de Francisco Ferreira. A Valentino Mazzola, Gabetto, Loik e todos os outros.. serão, para o futebol, eternos campeões!

A importância da História, para ditar um caminho

Filosofia e Identidade? Ou antes, Estratégia e Cinismo? Pode-se ler, se quisermos: "Guardiola? Ou Mourinho?". Ora, a resposta não reside em quantificar qualidades, até porque não é do que se trata. Trata-se, sim, de escolher/respeitar princípios. Princípios esses que foram sendo deixados através dos tempos. O Inter de Helenio Herrera e o catenaccio, a Holanda de 1974 ou o "El Toque" da Colômbia de Pacho Maturana, dos 90's. Qual destes, simboliza, afinal, o bom futebol?
Ora, para mim, a resposta é óbvia, e é, sem dúvida, aquele que provoca emoção, o que faz com que os adeptos adversários aplaudam a cada tabela ou drible mágico, só possível num mundo utópico, em que até o vendedor de chocolates paralisa! Esse, é o que me faz relembrar os grandes jogadores de outrora ainda melhores do que o que realmente foram, como se não fossem meros seres humanos, e sonhasse com cada talento que aparece. Aí, nessa galáxia emocional, Mourinho e Herrera não entram. São, contudo, símbolos indiscutíveis do futebol mundial, dos melhores que a bíblia do futebol conheceu.
Quando leio sobre competições e equipas que marcaram o futebol, fala-se da Holanda de 74, da Hungria de Puskas, do Brasil de 82, tal como, daqui a 100 anos, não se vai falar do Inter de Mourinho, vai-se falar, isso sim, nada mais nada menos do que... do Barça de Guardiola. Mas, descendo do Olimpo do futebol para a dura vida terrena, todas essas equipas do passado, no fim, perderam, reforçando ainda mais aquilo que foi o seu romance! Ninguém fala, no entanto, da Itália de 82, que até foi campeã do mundo.
No futebol, como na vida, o mais importante não são os troféus que se ganha. Ou, até podería ser, mas não era a mesma coisa...