sábado, 15 de setembro de 2012

Antes do modelo, do sistema e da tática. Conquistar a chave do balneário

                                  
   

Cada país, cada cidade, tem a sua realidade. Leia-se, os seus ícones, os seus karmas e kryptonites, as suas ideias, culturas e costumes. No futebol, as equipas obedecem à mesma lógica. Como no FC Porto os adeptos põem a tv aos berros quando Pinto da Costa fala, no Benfica pode-se ir ver um jogo quase aos confins do planeta que parece que nunca se está a jogar fora. Cada equipa, cada realidade.
 
Villas-Boas chega ao Chelsea e toca nos cabides reservados do balneário, principalemente em Terry, Drogba e Lampard. Antes de ter o modelo de jogo em mente, tem que ter a chave do balneário no bolso, com os cabides certos dados às pessoas certas. Com isto não quero dizer que o treinador não deva ser o líder, aliás, a questão reside precisamente aí. Só se pode ser um bom líder se se tiver a confiança/lealdade dos jogadores. Se aqueles que guardam a chave do balneário não estão com o treinador, a equipa dificilmente estará.
Faltou, na minha opinião, a capacidade a Villas-Boas de entender a realidade do clube, e de a respeitar, sobretudo, aquilo que Mourinho tão bem faz. Só depois deste primeiro passo se pode pensar no jogo jogado.
Agora no Tottenham, fico perplexo com este início que me parece de novo errado. Renunciar à influência de Van der Vaart, um dos pilares da equipa, e contratar Hugo Lloris com o eterno Friedel e Gomes para a baliza dos Spurs, é meio caminho andado para nunca mais segurar a equipa tático-emocionalmente. Existe também a hipótese de esses jogadores estarem contra o treinador, e aí sim, terem de sair. No entanto, não me parece que seja o caso. Esperemos, claro, que eu esteja errado.
 
Experimentem pensar num treinador a chegar ao Porto e dispensar Hélton, ou ao Sporting e pôr Patrício no banco de suplentes. Sucesso? Ignorando questões técnicas e pensando na influência dos jogadores, acho difícil.

Colômbia com cheiro a 'Rama



A Colômbia de Pékerman está agora no 2º lugar da qualificação para o mundial, isto depois de vencer o Uruguai por 4-0 e o Chile por 1-3.
No sistema de 4x2x3x1 , joga com dois laterais de muito bom nível (Armero à esquerda a cavar o campo por onde passa, Zúniga à direita com uma qualidade tremenda a atacar), a dupla de centrais Pérea-Yepes (onde acho que é onde esta seleção tem mais problemas, gostava de ver Mosquera no lugar de Perea) bem protegida pelo duplo pivot Aguilar-Edwin Valencia, onde o primeiro tem uma visão a raio x e o segundo garante o equilíbrio à frente da defesa. Na frente dos dois médios joga Torres na posição 10 e James a partir da esquerda, a inventarem últimos passes e desequilíbrios. Por fim tem uma dupla atacante infernal, Teó Gutierrez (bom jogador, grande facilidade de remate e deslocação eficaz sem bola) a jogar a extremo direito no papel, e a ponta-de-lança, claro.. o demónio dos defesas, Radamel Falcao. No banco, tem Carlos Valdés com qualidade a central e muita atenção à intensidade do médio-ala Cuadrado e ao dinamismo que Aldo Ramírez pode trazer a meio-campo.

É uma daquelas equipas que como costumo dizer, transmite-me a sensação de bom futebol. Gosta de ter a bola e de a circular em toque curto, onde Aguilar é insubstituível. Tem magia em James, velocidade em Zúniga, enorme classe em Falcao, e oportunismo em Gutiérrez.

Poderá ser o regresso do El Toque de Pacho aos tempos modernos. Vejo esta Colômbia, e parece que deteto um fantasma vestido de amarelo com um 10 nas costas, a passear a cabeleira loira pelo relvado, a fazer passes de trivela para um negro supersónico. Era a arte de Valderrama, Asprilla, Rincón, entre outros, nos anos 90.
Espero, sinceramente, ver os cafeteros em grande no Mundial.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Benfica, Porto e Sporting. 3 Equipas, 1 dilema. Viver agarrado ao passado, ou reinventar um futuro?





A discussão de quem, Benfica ou Porto, ficou mais vulnerável após este defeso é compreensível. No entanto, não é, na minha opinião, muito lógica. Se me perguntarem se prefiro uma banana meia podre ou uma laranja azeda eu não consigo responder. As duas estão claramente fora de questão, embora por razões diferentes.
A saída de Javi e Witsel no Benfica e de Hulk no Porto lesionam claramente a qualidade de ambas as equipas, mas influenciam o "jogar" delas de forma muito distinta. O Porto perde o jogador que pegava no jogo como um saco de boxe e o rebentava por todos os lados, o Benfica perde as âncoras que agarravam a equipa à realidade quando esta perdia a bola.
Falando do Benfica, penso que Matic é claramente a opção lógica (é a única, sem recorrer à equipa B) dentro do 4x1x3x2, mantendo assim a mesma forma de jogar. Perde bastante, na minha opinião, em termos de equilíbrio defensivo à frente da defesa. A nível nacional não digo que o Benfica não possa chegar ao título dessa forma, embora vá passar certamente por bastantes dificuldades em alguns jogos (no Axa, no Estádio da Madeira, no Dragão ou Alvalade), o grande problema surge, pois, na Champions, voltando à estória do Benfica em forma de contra-relógio. A alternativa passa pelo 4x4x2 quase clássico, jogando com um duplo pivot (Matic ao lado de Aimar ou Carlos Martins) e na frente a dupla Rodrigo e Cardozo ou Lima. Vejo, contudo, muito pouca profundidade no plantel para jogar desta forma, para além de que as opções de Aimar ou Martins ao lado de Matic são, no mínimo, duvidosas. Isto tudo, sem falar da dificuldade que teria o Benfica em adaptar-se a esse sistema nesta fase.

Analisando o Porto, existe também a opção lógica de manter o 4x3x3 com Varela, Atsu ou até Iturbe (dependendo de como este for evoluindo em termos de jogo em espaços curtos e na capacidade de receber a bola de forma orientada e segurá-la quando marcado, onde acho que tem muita dificuldade) no lugar de Hulk. Perde o pugilista da equipa, mas mantém as ideias do seu pensamento tático coletivo e até do próprio modelo de jogo. Das 3 opções para o lugar, vejo no Varela o "mais jogador" para o fazer (jogador que continua, estranhamente, algo criticado). Atsu é terrível (para os adversários, claro) como extremo, mas não tem nem de perto nem de longe a qualidade para aparecer em zonas de finalização que tinha Hulk ou que tem Varela. A frente de ataque James - Jackson - Varela com trocas posicionais entre extremos (qualquer um deles pode jogar em ambas as faixas, James procurando zonas interiores sem bola, Varela ora ganhando profundidade na direita, ora fletindo para dentro a partir da esquerda) parece, à partida, a mais sensata.
Pensando em alternativas, veio-me à cabeça o 4x4x2 losango (talvez pelo desespero que já tenho de ver o Danilo como médio interior), Miguel Lopes a lateral direito, meio campo com Fernando a 6, Danilo e Moutinho interiores, Lucho a 10; Jackson e James; um mais fixo, outro mais solto, na frente. Questiono, no entanto, a capacidade de James aparecer bem em zonas de finalização como avançado. Pedia-se mais um jogador como o Rodrigo, por exemplo.

O que me parece mais importante do que todas estas reflexões de um amador é, sem dúvida, o teste que enfrentam Jorge Jesus e Vítor Pereira.
A primeira coisa que ensinam quando se vai tirar um curso de treinador de futebol é que, naquele mundo, não existem boas ou más ideias. Existem apenas ideias. É possível, mas acho facilmente refutável. Acredito sobretudo em ideias avançadas no tempo, e noutras que estão permanentemente agarradas ao passado, no futebol como na vida. As duas são válidas, mas sem a primeira (treinadores como Hugo Meisl nos anos 30 ou Gustav Sebes nos anos 50) o futebol nunca teria chegado onde chegou.
Na pausa de Inverno, onde há a oportunidade de treinar novos habitats e comportamentos táticos dos jogadores, irão os treinadores dos grandes portugueses atrás de jogadores iguais a Javi, Witsel, Matías ou Hulk, ou irão tentar reinventar-se a si próprios? Como muito bem disse o mestre Luís Freitas Lobo, não existem clones no futebol, como é evidente.

Penso nisso quando vejo o Sporting de Sá Pinto, agora sem Matías e Izmailov sempre lesionado, agarrado ao 4x2x3x1, como que se de a beira de um precipício se tratasse, quando, e digo-o com toda a certeza, os jogadores do plantel pedem um evidente 4x3x3, para que possa haver um futuro.