A discussão de quem, Benfica ou Porto, ficou mais vulnerável após este defeso é compreensível. No entanto, não é, na minha opinião, muito lógica. Se me perguntarem se prefiro uma banana meia podre ou uma laranja azeda eu não consigo responder. As duas estão claramente fora de questão, embora por razões diferentes.
A saída de Javi e Witsel no Benfica e de Hulk no Porto lesionam claramente a qualidade de ambas as equipas, mas influenciam o "jogar" delas de forma muito distinta. O Porto perde o jogador que pegava no jogo como um saco de boxe e o rebentava por todos os lados, o Benfica perde as âncoras que agarravam a equipa à realidade quando esta perdia a bola.
Falando do Benfica, penso que Matic é claramente a opção lógica (é a única, sem recorrer à equipa B) dentro do 4x1x3x2, mantendo assim a mesma forma de jogar. Perde bastante, na minha opinião, em termos de equilíbrio defensivo à frente da defesa. A nível nacional não digo que o Benfica não possa chegar ao título dessa forma, embora vá passar certamente por bastantes dificuldades em alguns jogos (no Axa, no Estádio da Madeira, no Dragão ou Alvalade), o grande problema surge, pois, na Champions, voltando à estória do Benfica em forma de contra-relógio. A alternativa passa pelo 4x4x2 quase clássico, jogando com um duplo pivot (Matic ao lado de Aimar ou Carlos Martins) e na frente a dupla Rodrigo e Cardozo ou Lima. Vejo, contudo, muito pouca profundidade no plantel para jogar desta forma, para além de que as opções de Aimar ou Martins ao lado de Matic são, no mínimo, duvidosas. Isto tudo, sem falar da dificuldade que teria o Benfica em adaptar-se a esse sistema nesta fase.
Analisando o Porto, existe também a opção lógica de manter o 4x3x3 com Varela, Atsu ou até Iturbe (dependendo de como este for evoluindo em termos de jogo em espaços curtos e na capacidade de receber a bola de forma orientada e segurá-la quando marcado, onde acho que tem muita dificuldade) no lugar de Hulk. Perde o pugilista da equipa, mas mantém as ideias do seu pensamento tático coletivo e até do próprio modelo de jogo. Das 3 opções para o lugar, vejo no Varela o "mais jogador" para o fazer (jogador que continua, estranhamente, algo criticado). Atsu é terrível (para os adversários, claro) como extremo, mas não tem nem de perto nem de longe a qualidade para aparecer em zonas de finalização que tinha Hulk ou que tem Varela. A frente de ataque James - Jackson - Varela com trocas posicionais entre extremos (qualquer um deles pode jogar em ambas as faixas, James procurando zonas interiores sem bola, Varela ora ganhando profundidade na direita, ora fletindo para dentro a partir da esquerda) parece, à partida, a mais sensata.
Pensando em alternativas, veio-me à cabeça o 4x4x2 losango (talvez pelo desespero que já tenho de ver o Danilo como médio interior), Miguel Lopes a lateral direito, meio campo com Fernando a 6, Danilo e Moutinho interiores, Lucho a 10; Jackson e James; um mais fixo, outro mais solto, na frente. Questiono, no entanto, a capacidade de James aparecer bem em zonas de finalização como avançado. Pedia-se mais um jogador como o Rodrigo, por exemplo.
O que me parece mais importante do que todas estas reflexões de um amador é, sem dúvida, o teste que enfrentam Jorge Jesus e Vítor Pereira.
A primeira coisa que ensinam quando se vai tirar um curso de treinador de futebol é que, naquele mundo, não existem boas ou más ideias. Existem apenas ideias. É possível, mas acho facilmente refutável. Acredito sobretudo em ideias avançadas no tempo, e noutras que estão permanentemente agarradas ao passado, no futebol como na vida. As duas são válidas, mas sem a primeira (treinadores como Hugo Meisl nos anos 30 ou Gustav Sebes nos anos 50) o futebol nunca teria chegado onde chegou.
Na pausa de Inverno, onde há a oportunidade de treinar novos habitats e comportamentos táticos dos jogadores, irão os treinadores dos grandes portugueses atrás de jogadores iguais a Javi, Witsel, Matías ou Hulk, ou irão tentar reinventar-se a si próprios? Como muito bem disse o mestre Luís Freitas Lobo, não existem clones no futebol, como é evidente.
Penso nisso quando vejo o Sporting de Sá Pinto, agora sem Matías e Izmailov sempre lesionado, agarrado ao 4x2x3x1, como que se de a beira de um precipício se tratasse, quando, e digo-o com toda a certeza, os jogadores do plantel pedem um evidente 4x3x3, para que possa haver um futuro.